terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

2.Fazenda Suissa e Fazenda Sabiá 1955 a 1985 (3)
Após a dissolução do espólio de Max Wirth os dois cunhados que ficaram com a Fazenda Suissa começaram implantar seus diferentes estilos de gestão. Dr. Pedro gostava da agricultura e cultivava seus novos cafezais com carinho, mesmo porque ele contava com toda a infraestrutura necessária para o processamento do café. Já Dr. João acabara de voltar de uma viagem aos Estados Unidos onde estudou novas perspectivas para a produção de carne. Como ele ainda não tinha uma sede operacional na nova Fazenda Sabiá ele aproveitou para substituir os cafezais por pastagens.  

2.5 A Equipe de Construção da Nova Sede
Por volta de 1962, depois que o escritório de arquitetura Pestallozzi forneceu todas as plantas das casas novas da Fazenda Sabiá, Dr. João foi buscar uma equipe de construtores competentes na Fazenda Paredão.
Seu cunhado Dr. Pedro que lá morava convocou o suíço Walter Tobler, um amigo de infância. Ele era marceneiro de mão cheia, mas atuava principalmente como construtor, profissão de maior demanda naquela época de divisão das fazendas. Em 1953 Walter Tobler havia contratado um mestre carpinteiro em sua terra natal para completar sua equipe brasileira. Erwin Mathys jovem mestre era filho de uma tradicional família de carpinteiros dos confins do Emmenthal. Ele queria se aventurar no Brasil e desta forma juntou a fome com a vontade de comer, conforme manda o ditado. Vindo para cá foi contratado por Walter mas não tardou à se tornar sócio do compatriota. No final da década de 1950 ambos casaram com moças de Oriente-SP e os negócios começaram a prosperar. 

 Dr. João pediu à dupla Tobler-Mathys de erguer todas as construções necessárias para a nova sede o mais rápido possível. Enquanto isso Paul Ackermann, o administrador que morava na Mansão Ventania, arrancava café, semeava pastagens, enfim, cuidava das lavouras e do gado. Os sócios construtores chegaram com a turma num pequeno caminhão Opel e montaram acampamento em baixo da figueira, única ainda pequena sombra do local.



Construíram primeiramente um reservatório de água subterrâneo com capacidade de armazenar 86’000litros  e uma caixa d’água elevada de 17’000 litros no topo da colina junto à futura sede. Era uma obra de concreto armado muito exagerada em sua robustez, mas ousada em sua estrutura e moderna no visual.


 Logo que foi possível utilizar o reservatório ele se tornou a alegria da turma da construção. Todo fim de expediente os homens se jogavam pelados naquele grande tanque, nadavam e brincavam para se refrescar da labuta diária no descampado sem sombra




Os Galpões de Erwin Mathys

Em seguida construíram o grande galpão de máquinas conforme projeto de Erwin Mathys, com tesouras que vencem grandes vãos utilizando peças relativamente curtas unidas somente com cravilhas dispensando parafusos. O projeto otimiza o uso da madeira em relação à sua área coberta de 440 metros quadrados. As tesouras treliçadas vencem um vão entre apoios de 13 metros e acrescentam mais 4,50 metros de balanço em cada lateral completando 22 metros de comprimento.



 Tão logo ficou pronto o galpão passou primeiramente à abrigar a fabricação dos blocos de concreto utilizados na construção de todas as casas, dos quartinhos da cocheira, da oficina e do escritório. Além disso, a turma também mudou o acampamento da figueira para o conforto do galpão.






Em 1963 Erwin Mathys e sua esposa Dirce haviam se mudado de Oriente para a Fazenda Suissa à fim de acompanhar de perto a equipe de construção da nova sede da Fazenda Sabiá, sem abdicar ao conforto de uma casa de alvenaria. Eles moravam ao lado da casa do guarda-livros. 




Ao mesmo tempo em que ele orientava os trabalhos de construção da nova sede da Fazenda Sabiá, ele também ajudou a modernizar a Fazenda Suissa. As tulhas secadoras foram demolidas e no espaço por elas ocupado foi construído um galpão para guardar máquinas, parecido porém maior que aquele da Fazenda Sabiá.
O secador passou por uma reforma na qual se retirou a torre do elevador principal, se instalou fornalhas mais eficientes e se construiu uma nova moega.


Todos esses trabalhos foram realizados pela equipe Tobler-Mathys, mas o mestre carpinteiro do Vale do Emmenthal era o engenheiro chefe que calculava todas as peças e junções garantindo a estabilidade das estruturas. Trinta anos mais tarde ele foi consultado para uma modificação simples da estrutura do telhado da moega. Foram retirados 2 pés-direitos sem alterar as tesouras. A folha à seguir é parte do projeto de alteração que Erwin Mathys calculou e desenhou de próprio punho.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

2.Fazenda Suissa e Fazenda Sabiá 1955 a 1985 (2)

2.3 O Sertãozinho
No período do condomínio após o falecimento do patriarca, o gerente geral da Fazenda Suissa, Ernst Loosli, se aposentou e foi cuidar de sua propriedade próxima ao perímetro urbano de Guaimbê.

Seu sucessor Ernesto Öhninger era um jovem técnico agrícola crescido e formado nos pomares de macieiras, pereiras e pessegueiros do Cantão de Thurgau na Suíça. Coube a ele a renovação e os cuidados das novas lavouras de café em curva de nível, além de iniciar os reflorestamentos de pinus e eucaliptos. Porém primeiro ele pode saborear um pouquinho a aventura de desbravar terras intocadas pelo homem branco. 
Havia no canto oeste da fazenda um resto de mata virgem chamado Sertãozinho que logo mais passaria a fazer parte da Fazenda Sabiá. O mapa abaixo ilustra a Fazenda Suissa já com as reformas implantadas nos anos que se seguiram pelo filho Dr.Pedro e pelo genro Dr.João, ambos engenheiros agrônomos sucessores de Max Wirth.


Em 1957 Hans Peter Wirth (Dr. Pedro) que encabeçava o condomínio arrendou o Sertãozinho ao Sr. Koishi Tokuda e sua família para derrubar parte da mata e plantar algodão durante 2 ou 3 anos, sob a orientação  do administrador Ernesto Öhninger.




Conforme nos conta seu filho Sr. Minoru Tokuda antes de se estabelecer na Fazenda Suissa a família havia tentado a sorte em diversos municípios do Oeste Paulista como Nova Europa, Itápolis, Jales e Araraquara. 
O casal Tokuda tinha 4 filhos homens que ajudavam na roça e uma filha já casada que morava em Pompéia. Após a derrubada a família montou uma casa de madeira, plantou algodão e cultivou uma roça para subsistência. Seu meio de transporte era um carroção puxado por diversas juntas de burros com o qual sempre vinham até a sede conversar com Sr. Ernesto e se abastecer no armazém da fazenda.



2.4 Fazenda Sabiá (1): As Moradias

Mansão Ventania

Johann Viktor Baumgartner (Dr.João) assumiu sua parte da Fazenda Suissa e deu-lhe o nome de Fazenda Sabiá. Contratou Paul Ackermann um administrador suíço que todos chamavam de Paulão. Ofereceram-lhe uma moradia confortável na antiga sede, mas Paulão resolveu construir sua própria casa de madeira no meio das colinas descampadas da Sabiá onde haviam arrancado o velho cafezal e plantado gramão para a formação de pastagem. Assim estaria mais próximo do serviço. O vento castigava sua nova casa sem piedade por isso Paulão plantou uma figueira nos fundos e deu o pomposo nome de “Villa Durchzug”, Mansão Ventania livremente traduzido, ao seu novo lar.



A Sede Nova

Na Fazenda Sabiá já havia três colônias onde os trabalhadores moravam em casas geminadas muito simples. A colônia principal, Santa Maria, hoje ainda está bem preservada e as outras duas, São José e Jiquiri, desapareceram só restando poucos vestígios.

Faltavam, no entanto casas confortáveis para os colaboradores mais qualificados como mecânico, tratorista e escrivão. No início da década de 1960 Dr. João contratou o escritório de arquitetura Pestallozzi de São Paulo para elaborar o projeto dessa nova sede planejada para ficar ao lado da Mansão Ventania. O arquiteto e seu irmão artista vieram para o interior num carro Aero Willis modernoso, ficaram por alguns dias na casa do Dr.João e Dona Verena. Enquanto o arquiteto debatia as diretrizes do projeto com os proprietários o irmão pintou o retrato que hoje está no escritório da fazenda. O resultado dessa visita foi um conjunto de 6 casas com telhados de fibrocimento de uma água e pequeno alpendre na frente.


As casas tinham 2 quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviços com dimensões generosas e a leveza característica da arquitetura modernista da época. Fugindo da tradição colonialista onde as casas padrão eram alinhadas ao longo de uma rua o arquiteto optou por agrupá-las aos pares deixando um gramado central. Cada casa tem seu quintal com pomar, galinheiro e pocilga no fundo – enfim uma sede modelo moderna!





domingo, 17 de janeiro de 2016

2.Fazenda Suissa 1955 a 1985 (1)

2.1 Transição para uma Nova Era
O pioneiro Max Wirth morou na Fazenda Suissa de 1922 até 1935, quando se mudou com a esposa Dona Emília para a Fazenda Paredão em Oriente. À partir de 1941 ele se dedicou à fundação da cidade de Osvaldo Cruz e à abertura de novas fazendas. Os filhos, depois de completarem seus respectivos estudos, retornaram um após o outro ao Brasil, vindo sempre à morar primeiramente na Fazenda Suissa. 


Max Wirth Junior descreve os anos que se seguiram em sua crônica:
“Nesse meio tempo todos os filhos residentes no Brasil já haviam assumido suas próprias fazendas. Os demais bens da família formavam um conglomerado complexo composto por nove fazendas, uma indústria de óleo e diversas participações societárias que só pode ser bem administrado porque nosso pai, os irmãos e parentes sempre priorizaram a razão e a solidariedade apesar das diferenças de temperamentos.
No dia 31 de dezembro de 1952 Max Wirth faleceu em Santos vítima de infarto. Após sua morte o conglomerado continuou sendo administrado em forma de condomínio por Peter Wirth e os senhores Oscar Tanner, João Guerra e Hans Benz no mesmo estilo de solidariedade por mais 10 anos.”   

Os sucessores: Transformação da Paisagem
Com a dissolução do Espólio Max Wirth a fazenda foi dividida em duas: a metade norte com a velha sede que continuou sendo Fazenda Suissa ficou para o filho Hans Peter Wirth, por todos chamado de Dr. Pedro, e a metade sul que recebeu o novo nome de Fazenda Sabiá ficou para a filha Verena e seu marido Johann Viktor Baumgarner que chamavam de Dr. João.

Os cunhados se entendiam muito bem por serem ambos engenheiros agrônomos formados na Suíça.




Os cafezais, já contando 30 anos de existência, tinham de ser renovados.  O sistema rigorosamente ortogonal sem respeitar a topografia no qual foram implantados gerou muita erosão. O leito dos carreadores por onde transitavam os carroções e tratores estava fundo pelo desgaste das enxurradas. Em 1946 quando Dr. Pedro voltou recém-formado da Suíça recomendou ao seu pai de plantar as novas lavouras em curva de nível. O velho Max respondeu: “Lavoura reta é objetiva, fácil de administrar; lavoura em curva custa mais e quem quiser implantá-la que pague do próprio bolso” Portanto quando assumiram as lavouras da velha Fazenda Suissa os cunhados concordaram que tinha chegado a hora de mudar. Pedro iniciou novas lavouras de café em curva de nível e João substituiu o café por pastagens nesse mesmo sistema. Ambos reflorestaram grande parte da fazenda com eucaliptos e pinus, deixando para trás a era de pura exploração para inaugurar a era de conservação e melhoria do solo.  O mapa à seguir, desenhado por Walter Schiller em 1959, mostra a divisão da fazenda já com indícios das curvas de nível no traçado das estradas.



2.2 As Fontes

Para nos relatar sobre essa nova era contamos com dois moradores antigos de ambas as fazendas.


Olavo Arantes Júnior nasceu em 1951 na Fazenda Suissa, colônia São José, sendo um dos doze filhos do fiscal geral Sr. Olavo Arantes. Aqui morou até a maioridade quando foi para São Paulo trabalhar como bancário. Já nos anos 1990 adquiriu uma parte da Fazenda Suissa ao qual deu o nome de Fazenda 1º de Maio.












 
José da Cruz, filho do Sr. Otacílio jardineiro e velho companheiro do Dr. João, veio morar na Fazenda Sabiá em 1968, mesmo ano da chegada do segundo administrador. Essa data coincide com o final da construção da sede. Recentemente se aposentou e mudou para a cidade após 40 anos vividos na Fazenda Sabiá.













domingo, 10 de janeiro de 2016

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (12)

1.6 Moradias (3)
As primeiras moradias da Fazenda Suissa foram construídas com madeira proveniente das derrubadas, desde a casa do patrão, as casas dos funcionários de primeiro escalão, até as casas geminadas dos colonos. Algumas tinham fundações de alvenaria e outras de estacas de aroeira.
Variava, porém o grau de acabamento que conferia maior ou menor conforto ao morador, de modo que as mais confortáveis como, por exemplo, a primeira casa sede tinham janelas com vidros e venezianas, ambientes internos forrados e portas com fechaduras no lugar das tramelas, diferentemente das casas dos colonos desprovidas destes detalhes. Mas todos almejavam morar em casa de alvenaria com banheiro interno e acabamento refinado. À seguir estão relacionadas as moradias dessa categoria. As velhas casas de madeira eram consideradas atraso de vida por isso hoje não resta mais nem uma única sequer na Fazenda Suissa.

A Casa dos Administradores

O departamento de pessoal era estruturado conforme uma rígida hierarquia. O gerente geral Ernst Loosli comandava os administradores de diferentes setores e abaixo deles havia o fiscal geral que supervisionava o serviço braçal, os profissionais da construção, mecânico, maquinista e guarda-livros. Max Morel ( na foto à direita de Walter Schiller), Leôncio Bannwart e Rodolfo Wild foram os administradores que moraram na casa próxima da família Loosli no alto da colina. Entre as duas casas havia uma construção comprida apelidada de Zeppelin que abrigava os tratores, o carro Ford e terminava no paiol de milho. 


 A Casa dos Administradores tem 3 quartos pequenos, 2 quartos grandes, sala, copa, cozinha,  despensa e banheiro.  A forma do telhado lembra um pouco a tradição das construções rurais do cantão de Berna na Suíça. Junto à casa, sob a alameda de mangueiras da estrada, havia um campo de bocha muito frequentado aos fins de semana.




Duas gerações da família Schiller moraram na Fazenda Suissa. Primeiro o engenheiro Walter (na foto à esquerda de Max Morel com sua esposa Amália e filhos moraram na Casa-Sede de madeira. Ele trabalhou alguns anos como administrador e agrimensor na Fazenda Suissa e, após adquirir o Sítio Cana Verde em Lucélia, passou a prestar serviços de topografia além de cuidar das lavouras e do alambique de seu sítio. Com saudades a comunidade suíça se lembra dele, o grande acordeonista que embalava o baile e acompanhava a cantoria a beira da fogueira nas festas de 1º de agosto, dia em que se comemora a independência da Suíça


Muitos anos depois o filho Walter Schiller Junior, veterinário, morou na Casa dos Administradores e fez uma reforma onde acrescentou um anexo com mais 2 quartos, banheiro, área de serviços e garagem. Esse anexo curiosamente foi construído de forma à obstruir a estrada do alto da colina e inutilizar o campo de bocha.

A Casa do Serrador


Ao lado da Casa dos Administradores tem uma casa um pouco estranha. O telhado pontudo de quatro águas e os puxados laterais remete ao mundo dos ogros ou das fadas. 
Nela morava a família de Albino Kursel que tocava a serraria, pessoa chave para o bom funcionamento da fazenda. 
A casa tem três quartos, sala, copa, cozinha, banheiro e uma varanda de serviços.










A Casa do Guarda-Livros e Vespário



 Os guarda-livros sempre moraram na casa ao lado do escritório velho. O primeiro foi Willy Schmidt, depois seguiram Mauro Ebner e Frederico Kremper, Walter Beck e Natal Polizato.

  
Dona Terezinha, a esposa de Frederico Kremper, cuidava do vespário, Uma das primeiras pragas que se instalou nos cafezais foi a broca. Como não havia fácil acesso à defensivos químicos a broca era combatida com seu inimigo natural, as vespas.  Elas eram criadas numa pequena construção ao lado do terreiro, domínio de Dona Terezinha.


A Casa do Fiscal

Quem chegava na Fazenda Suissa se deparava primeiro com a Casa do Fiscal onde era o ponto do ônibus Pássaro Amarelo. O Sr. Olavo Arantes criou seus filhos nessa casa, sempre trabalhando como fiscal geral.

A Casa do Fiscal fica ao lado da escola e da farmácia. Ela tinha 3 quartos, sala, copa, cozinha, despensa e uma cozinha externa junto ao banheiro num anexo. 
Posteriormente esta casa passou por uma reforma, sendo anexada ao conjunto da escola e da farmácia.


O Fim de uma Era

Max Wirth faleceu no último dia do ano de 1952. Junto com ele a Fazenda Suissa encerrou sua fase de desmatamento, consolidação dos cafezais e colonização.
Centenas de imigrantes ajudaram nessa tarefa. Primeiramente Max Wirth trouxe seus compatriotas da Suíça, depois seguiram espanhóis e italianos. No início da década de 1930 a Fazenda Suissa firmou contratos de trabalho com o governo japonês. Assim diversas famílias japonesas vieram somar esforços e iniciar uma nova vida no Brasil.

A aquarela de Takaoka é um presente para a família Wirth de Noda Guenko, fazendeiro do município de Getulina, que acompanhou a delegação do príncipe do Japão em sua visita à Fazenda Suissa em1957. Nessa ocasião os contratos já haviam terminado, mas permaneceu o vínculo de admiração e respeito mútuo entre japoneses e suíços. 



sábado, 26 de dezembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (11)

1.6 Moradias (2)

O Estilo que Nasceu da Saudade

Para conseguir realizar seus projetos Max Wirth buscou homens de sua confiança na Suíça. A foto abaixo mostra da esquerda para a direita os senhores Fritz Walder (administrador), Ernst Loosli (gerente geral), Walter Schiller (administrador e topógrafo) e Max Morel (administrador).


 Após dez anos de trabalho árduo a Fazenda Suissa chegou ao auge de produtividade. Lavouras com 1.200.000 pés de café produzindo substituíram as matas, exceto em algumas encostas, as pastagens estavam cheias de gado gordo e mão de obra bem estruturada garantia a continuidade dos trabalhos.

Havia chegado a hora de se iniciar um novo projeto. Assim Max Wirth voltou sua atenção para a Fazenda Paredão, próximo da pequena cidade de Oriente e adjacente à ferrovia.
Apesar do sucesso nos empreendimentos os suíços sentiam saudades da terra natal. O primeiro impulso da aventura no Brasil se transformou em rotina de trabalho e cuidados com a família aqui constituída. Ernst Loosli, o gerente geral, merecia uma moradia melhor então, em vez de construí-la conforme o modelo brasileiro optou-se por copiar em escala menor o vistoso chalé chamado Villa Sonnenbühl, residência da família Wirth nos Alpes suíços. Talvez por  praticidade o pioneiro encomendou logo mais uma casa parecida, porém menor ainda, para si na Fazenda Paredão. Assim a Villa Sonnenbühl, construída em 1911, com quatro pavimentos além do sótão, 11 quartos, banheiros, salas e salões, cozinha com depósitos, estrebarias e gazebo gerou logo duas cópias...


 A primeira cópia Max Wirth construiu para si e para sua esposa Emily na Fazenda Paredão em Oriente. Era minúscula para o padrão da época, mas já que os filhos estavam todos na Suíça completando os estudos bastava-lhes uma casa pequena. Tinha apenas um quarto, amplo banheiro, sala com copa de almoço, cozinha com fogão à lenha, despensa e uma varanda. Não havia acesso interno ao sótão, mas tinha um pequeno anexo para serviços.


A segunda cópia, bem maior, foi a casa da família Loosli, construída em 1936. Ernst, Emma, a pequena Lilly e o recém-nascido Fritz moravam na sede de madeira antes de mudarem para sua nova casa de alvenaria. Ao contrário da Villa original esta casa tinha somente um pavimento térreo com 3 quartos, banheiro, copa, cozinha, sala de estar, sótão com dois quartinhos,  grande varanda adequada ao clima tropical e uma piscina que também alimentava o lavador de café. Posteriormente também foi construído um anexo para serviços e, quando a filha mais velha Lilly se casou, foi acrescentada uma suíte no fundo.




Detalhes típicos das construções suíças como os telhados muito inclinados, os oitões revestidos com tabuinhas de madeira em forma de escamas, as paredes das salas revestidas com painéis de madeira e a lareira no centro da casa, compõe um estilo único, resultante da profunda saudade dos suíços que trocaram sua pátria pelo Brasil.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (10)

1.6 Moradias (1)

As duas Casas Sede:
Depois da primeira derrubada em 1922 logo foram construídas muitas casas de madeira para acomodar os desbravadores acampados. Max Wirth fez para si uma casa com aproximadamente 200 metros quadrados, quatro quartos sala e cozinha. A princípio não havia banheiro, depois foi construído ao lado uma casa de banho de alvenaria que também abrigava o gerador à diesel.  Avarandada na volta toda e elevada do terreno natural era uma construção de madeira solidamente implantada no final da fila de casas de seus colaboradores mais próximos. Mesmo antes de ficar pronta ele chamou sua mulher Emilie com os 7 filhos para que viessem da Suíça acompanhá-lo em sua aventura. Seu filho Max Wirth Junior descreve esse evento com maestria:


“A casa de madeira. Saindo do palacete vermelho chamado Sonnenbuehl no Toggenburg (Suíça) onde havia todo conforto como água corrente quente e fria, calefação nos 11 quartos, jardim de inverno, sala de jantar e salão principal, a chegada nesse bangalô sobre palafitas, ainda inacabado, erguido entre toras da queimada e entulhos da obra, deve ter sido um choque para a mãe! Não me lembro do ano - acho que foi em agosto ou setembro - de qualquer maneira era logo após a queimada da mata já derrubada havia semanas, quando as cinzas ainda não estavam misturadas ao solo e a bruma da fumaça encobria a vista deixando o mundo tão triste como após uma devastação atômica. Era pedir demais de uma mãe, exausta após a viagem de três dias com sete filhos empoeirados, suados, famintos e sedentos, sem saber como seria o dia seguinte.


O pai nos havia esperado na estação ferroviária em Albuquerque Lins onde deveríamos ter chegado 2 ou 3 horas antes. Três carros de aluguel e o caminhão da fazenda estavam a postos e por ainda ser necessário percorrer aproximadamente 40 quilômetros seguimos sem mais delongas. No início da viagem havia plantações de café novo, arbustos redondos alinhados, havia carreiras de casas novas de madeira, pastagens e quiçaça, córregos e brejos, depois a verde mata fechada onde enormes borboletas azuis dançavam à nossa frente, acompanhando-nos por um trecho para em seguida desaparecer na selva. Depois a ponte precária sobre o rio, o rápido intervalo para colocar água no radiador e longas retas de estrada na floresta, uma parada num entroncamento e plantações novas. Pessoas nos cumprimentavam com cordialidade. Eram colonos da fazenda que acabavam de consertar o último trecho da estrada. Me lembro...que uma caixa de cerveja foi tirada do caminhão e as pessoas sedentas brindaram com bom humor. A cerveja espumava e transbordava; o auge desse dia de nossa chegada na fazenda Suiça...no final da longa viagem, lá estava nossa casa, o bangalô sobre palafitas...”


Em 1925 Max Wirth construiu para sua família uma casa de alvenaria, muito parecida em sua concepção com a primeira casa de madeira, porém mais confortável e localizada no ponto mais alto da fazenda. Seu principal colaborador, o gerente geral Ernst Loosli, passou a morar na casa de madeira. A foto abaixo mostra a pequena família recepcionando visitas na frente da casa e ao fundo se vê a casa de banho. Em 1936 a família Loosli se mudou para uma nova casa de alvenaria e Walter Schiller passou à morar na casa de madeira.




A casa de alvenaria era maior, também avarandada em três lados, com cinco quarto uma cozinha, um banheiro e salas de jantar e estar. O banheiro tinha duas portas: uma dava para o quarto do casal e outra dava para a varanda e era utilizada por todos os demais moradores da casa. Havia um tanque para lavar roupas no porão e o sótão servia de depósito.


As paredes das salas de jantar e estar eram revestidas com painéis de madeira de 1,50m de altura. Esse bonito detalhe foi importado da Suíça onde é muito utilizado para melhorar o conforto térmico nos invernos rigorosos, quando as paredes de alvenaria irradiam o frio. Não havia porta de ligação entre a cozinha e a sala de jantar, porém uma janelinha embutida na imensa estante com aparador servia de passador para as travessas de comida.

 Essa residência imitava o modelo das casas de bandeirantes, tão em voga na década de 1920 quando o Movimento Modernista redescobriu e passou cultivar valores brasileiros.


Em 1928 os filhos mais novos Hans, Max, Peter, Emil e Verena viajaram para a Suíça à fim de continuar seus estudos. As duas irmãs mais velhas Annemarie e Hanne já se encontravam lá e ficaram encarregadas de cuidar dos irmãos na ausência dos pais. Logo Max Wirth se mudaria para a Fazenda Paredão em Oriente, mas continuou utilizando essa sede sempre que vinha à Fazenda Suissa.

Todos os filhos, um após o outro exceto Annemarie, moraram transitoriamente nessa casa ao retornarem já casados da Suíça, antes de assumirem cada qual suas próprias responsabilidades nas empresas do pai.


sábado, 12 de dezembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (9)
  
1.5 Saúde, Educação e Lazer (3)

Lazer:
Na colônia Santa Luzia tinha um campo de futebol grande onde todo sábado havia jogo. Ali também aconteciam as festas tal como descreve Max Wirth Junior em suas memórias:
“Festa na colônia: eis a inauguração festiva de uma das colônias com aproximadamente 20 casas duplas construídas em madeira sobre alicerce de alvenaria. Chegava gente à pé, à cavalo, de carroça e carro, foguetes subiam ao céu, bombinhas estouravam, bandeirolas esvoaçavam e jorrava espuma de cerveja quente das garrafas.

A sensação da festa era o boi no espeto! O churrasco é essencial para qualquer festa, carne à vontade para todos, o quanto cada um puder comer...O boi assado inteiro, a carne sendo cortada em lascas finas, oferecia especial satisfação aos olhos e ao olfato. Era o ano de1925 ou 26. O pessoal em trajes domingueiros, todos de chapéu, alguns de gravata, se vestiam com formalidade em sinal de respeito.”


Nos anos de 1940 a região de Guaimbê foi eletrificada. Com a vinda dessa nova fonte de energia as máquinas à vapor ficaram obsoletas. A sala da caldeira no final da linha de galpões destinados ao armazenamento e beneficiamento de café passou a abrigar o cinema. Todo sábado o ônibus Pássaro Amarelo trazia 4 grandes rolos de filme que eram apresentados depois do anoitecer.


Mas havia também os saraus dos suíços. Eles cantavam uma espécie de música suíça caipira chamada “Jodel” conforme relata Max Wirth Junior.


“ Na foto vemos a Família Farner, o pai, a mãe, Elsa, Amalie, Emma e Konrad...Não demorou muito para que a filha mais velha, Emma, viesse trabalhar em nossa casa pois já sabia cozinhar. Ela aprendeu culinária com a mãe e canto com o pai que cantava no coral masculino de Stammheim (Suíça) onde tocava um restaurante que chegou à beirar a falência, razão pela qual preferiu emigrar com a família para o Brasil. Quem gosta de cantar deve ter sentimentos e um pendor para o devaneio, e quando a vontade de fugir e o romantismo se misturam, emigrar surge como uma solução... Às vezes os Farner nos visitavam em casa, aí sempre cantávamos todos juntos. Ernst Loosli, o mais importante jovem colaborador de meu pai, sabia cantar o Jodel sem inibição com voz forte conforme a tradição dos Alpes Berneses. 


Juntamente com o timbre soprano de Emma, ou mesmo à três vozes afinadas, entoavam canções comoventes que soavam pela noite estrelada afora. Quando eram acompanhadas por Walter Schiller ao acordeom aí já havíamos um concerto respeitável de coral, cheio de emoções e após derramarmos algumas lágrimas saudosas o sarau se encerrava com o “evergreen” “Sah ein Knab ein Röslein stehn” ou o alegre ¨Dur’s Toggeburg uf und s’Toggeburg ab”. O canto pode construir pontes, até mesmo unir corações ou embelezar um acaso conveniente. Seja lá como for a cantoria ao luar teve efeito pois as três filhas dos Farner se casaram seguidamente: Emma com Loosli, Amalie com Schiller e Elsa com Meier.”


Elisabeth Loosli Massarollo, filha caçula de Ernst e Ema Loosli, relata que na escola havia também aulas de dança. As professoras ensinavam a valsa, o xote e a marcha. Havia uma vitrola que funcionava quando se dava corda para tocar os discos de vinil.
Elisabeth está no centro da foto ao lado de sua irmã mais velha Lily e dos irmãos Fritz e Ernst. Ao fundo o secador e a moega... 
Com tanta música na Fazenda Suissa não é de se estranhar que Elisabeth veio à se casar com Celso Massarollo, um verdadeiro pé-de-valsa...