domingo, 17 de janeiro de 2016

2.Fazenda Suissa 1955 a 1985 (1)

2.1 Transição para uma Nova Era
O pioneiro Max Wirth morou na Fazenda Suissa de 1922 até 1935, quando se mudou com a esposa Dona Emília para a Fazenda Paredão em Oriente. À partir de 1941 ele se dedicou à fundação da cidade de Osvaldo Cruz e à abertura de novas fazendas. Os filhos, depois de completarem seus respectivos estudos, retornaram um após o outro ao Brasil, vindo sempre à morar primeiramente na Fazenda Suissa. 


Max Wirth Junior descreve os anos que se seguiram em sua crônica:
“Nesse meio tempo todos os filhos residentes no Brasil já haviam assumido suas próprias fazendas. Os demais bens da família formavam um conglomerado complexo composto por nove fazendas, uma indústria de óleo e diversas participações societárias que só pode ser bem administrado porque nosso pai, os irmãos e parentes sempre priorizaram a razão e a solidariedade apesar das diferenças de temperamentos.
No dia 31 de dezembro de 1952 Max Wirth faleceu em Santos vítima de infarto. Após sua morte o conglomerado continuou sendo administrado em forma de condomínio por Peter Wirth e os senhores Oscar Tanner, João Guerra e Hans Benz no mesmo estilo de solidariedade por mais 10 anos.”   

Os sucessores: Transformação da Paisagem
Com a dissolução do Espólio Max Wirth a fazenda foi dividida em duas: a metade norte com a velha sede que continuou sendo Fazenda Suissa ficou para o filho Hans Peter Wirth, por todos chamado de Dr. Pedro, e a metade sul que recebeu o novo nome de Fazenda Sabiá ficou para a filha Verena e seu marido Johann Viktor Baumgarner que chamavam de Dr. João.

Os cunhados se entendiam muito bem por serem ambos engenheiros agrônomos formados na Suíça.




Os cafezais, já contando 30 anos de existência, tinham de ser renovados.  O sistema rigorosamente ortogonal sem respeitar a topografia no qual foram implantados gerou muita erosão. O leito dos carreadores por onde transitavam os carroções e tratores estava fundo pelo desgaste das enxurradas. Em 1946 quando Dr. Pedro voltou recém-formado da Suíça recomendou ao seu pai de plantar as novas lavouras em curva de nível. O velho Max respondeu: “Lavoura reta é objetiva, fácil de administrar; lavoura em curva custa mais e quem quiser implantá-la que pague do próprio bolso” Portanto quando assumiram as lavouras da velha Fazenda Suissa os cunhados concordaram que tinha chegado a hora de mudar. Pedro iniciou novas lavouras de café em curva de nível e João substituiu o café por pastagens nesse mesmo sistema. Ambos reflorestaram grande parte da fazenda com eucaliptos e pinus, deixando para trás a era de pura exploração para inaugurar a era de conservação e melhoria do solo.  O mapa à seguir, desenhado por Walter Schiller em 1959, mostra a divisão da fazenda já com indícios das curvas de nível no traçado das estradas.



2.2 As Fontes

Para nos relatar sobre essa nova era contamos com dois moradores antigos de ambas as fazendas.


Olavo Arantes Júnior nasceu em 1951 na Fazenda Suissa, colônia São José, sendo um dos doze filhos do fiscal geral Sr. Olavo Arantes. Aqui morou até a maioridade quando foi para São Paulo trabalhar como bancário. Já nos anos 1990 adquiriu uma parte da Fazenda Suissa ao qual deu o nome de Fazenda 1º de Maio.












 
José da Cruz, filho do Sr. Otacílio jardineiro e velho companheiro do Dr. João, veio morar na Fazenda Sabiá em 1968, mesmo ano da chegada do segundo administrador. Essa data coincide com o final da construção da sede. Recentemente se aposentou e mudou para a cidade após 40 anos vividos na Fazenda Sabiá.













domingo, 10 de janeiro de 2016

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (12)

1.6 Moradias (3)
As primeiras moradias da Fazenda Suissa foram construídas com madeira proveniente das derrubadas, desde a casa do patrão, as casas dos funcionários de primeiro escalão, até as casas geminadas dos colonos. Algumas tinham fundações de alvenaria e outras de estacas de aroeira.
Variava, porém o grau de acabamento que conferia maior ou menor conforto ao morador, de modo que as mais confortáveis como, por exemplo, a primeira casa sede tinham janelas com vidros e venezianas, ambientes internos forrados e portas com fechaduras no lugar das tramelas, diferentemente das casas dos colonos desprovidas destes detalhes. Mas todos almejavam morar em casa de alvenaria com banheiro interno e acabamento refinado. À seguir estão relacionadas as moradias dessa categoria. As velhas casas de madeira eram consideradas atraso de vida por isso hoje não resta mais nem uma única sequer na Fazenda Suissa.

A Casa dos Administradores

O departamento de pessoal era estruturado conforme uma rígida hierarquia. O gerente geral Ernst Loosli comandava os administradores de diferentes setores e abaixo deles havia o fiscal geral que supervisionava o serviço braçal, os profissionais da construção, mecânico, maquinista e guarda-livros. Max Morel ( na foto à direita de Walter Schiller), Leôncio Bannwart e Rodolfo Wild foram os administradores que moraram na casa próxima da família Loosli no alto da colina. Entre as duas casas havia uma construção comprida apelidada de Zeppelin que abrigava os tratores, o carro Ford e terminava no paiol de milho. 


 A Casa dos Administradores tem 3 quartos pequenos, 2 quartos grandes, sala, copa, cozinha,  despensa e banheiro.  A forma do telhado lembra um pouco a tradição das construções rurais do cantão de Berna na Suíça. Junto à casa, sob a alameda de mangueiras da estrada, havia um campo de bocha muito frequentado aos fins de semana.




Duas gerações da família Schiller moraram na Fazenda Suissa. Primeiro o engenheiro Walter (na foto à esquerda de Max Morel com sua esposa Amália e filhos moraram na Casa-Sede de madeira. Ele trabalhou alguns anos como administrador e agrimensor na Fazenda Suissa e, após adquirir o Sítio Cana Verde em Lucélia, passou a prestar serviços de topografia além de cuidar das lavouras e do alambique de seu sítio. Com saudades a comunidade suíça se lembra dele, o grande acordeonista que embalava o baile e acompanhava a cantoria a beira da fogueira nas festas de 1º de agosto, dia em que se comemora a independência da Suíça


Muitos anos depois o filho Walter Schiller Junior, veterinário, morou na Casa dos Administradores e fez uma reforma onde acrescentou um anexo com mais 2 quartos, banheiro, área de serviços e garagem. Esse anexo curiosamente foi construído de forma à obstruir a estrada do alto da colina e inutilizar o campo de bocha.

A Casa do Serrador


Ao lado da Casa dos Administradores tem uma casa um pouco estranha. O telhado pontudo de quatro águas e os puxados laterais remete ao mundo dos ogros ou das fadas. 
Nela morava a família de Albino Kursel que tocava a serraria, pessoa chave para o bom funcionamento da fazenda. 
A casa tem três quartos, sala, copa, cozinha, banheiro e uma varanda de serviços.










A Casa do Guarda-Livros e Vespário



 Os guarda-livros sempre moraram na casa ao lado do escritório velho. O primeiro foi Willy Schmidt, depois seguiram Mauro Ebner e Frederico Kremper, Walter Beck e Natal Polizato.

  
Dona Terezinha, a esposa de Frederico Kremper, cuidava do vespário, Uma das primeiras pragas que se instalou nos cafezais foi a broca. Como não havia fácil acesso à defensivos químicos a broca era combatida com seu inimigo natural, as vespas.  Elas eram criadas numa pequena construção ao lado do terreiro, domínio de Dona Terezinha.


A Casa do Fiscal

Quem chegava na Fazenda Suissa se deparava primeiro com a Casa do Fiscal onde era o ponto do ônibus Pássaro Amarelo. O Sr. Olavo Arantes criou seus filhos nessa casa, sempre trabalhando como fiscal geral.

A Casa do Fiscal fica ao lado da escola e da farmácia. Ela tinha 3 quartos, sala, copa, cozinha, despensa e uma cozinha externa junto ao banheiro num anexo. 
Posteriormente esta casa passou por uma reforma, sendo anexada ao conjunto da escola e da farmácia.


O Fim de uma Era

Max Wirth faleceu no último dia do ano de 1952. Junto com ele a Fazenda Suissa encerrou sua fase de desmatamento, consolidação dos cafezais e colonização.
Centenas de imigrantes ajudaram nessa tarefa. Primeiramente Max Wirth trouxe seus compatriotas da Suíça, depois seguiram espanhóis e italianos. No início da década de 1930 a Fazenda Suissa firmou contratos de trabalho com o governo japonês. Assim diversas famílias japonesas vieram somar esforços e iniciar uma nova vida no Brasil.

A aquarela de Takaoka é um presente para a família Wirth de Noda Guenko, fazendeiro do município de Getulina, que acompanhou a delegação do príncipe do Japão em sua visita à Fazenda Suissa em1957. Nessa ocasião os contratos já haviam terminado, mas permaneceu o vínculo de admiração e respeito mútuo entre japoneses e suíços. 



sábado, 26 de dezembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (11)

1.6 Moradias (2)

O Estilo que Nasceu da Saudade

Para conseguir realizar seus projetos Max Wirth buscou homens de sua confiança na Suíça. A foto abaixo mostra da esquerda para a direita os senhores Fritz Walder (administrador), Ernst Loosli (gerente geral), Walter Schiller (administrador e topógrafo) e Max Morel (administrador).


 Após dez anos de trabalho árduo a Fazenda Suissa chegou ao auge de produtividade. Lavouras com 1.200.000 pés de café produzindo substituíram as matas, exceto em algumas encostas, as pastagens estavam cheias de gado gordo e mão de obra bem estruturada garantia a continuidade dos trabalhos.

Havia chegado a hora de se iniciar um novo projeto. Assim Max Wirth voltou sua atenção para a Fazenda Paredão, próximo da pequena cidade de Oriente e adjacente à ferrovia.
Apesar do sucesso nos empreendimentos os suíços sentiam saudades da terra natal. O primeiro impulso da aventura no Brasil se transformou em rotina de trabalho e cuidados com a família aqui constituída. Ernst Loosli, o gerente geral, merecia uma moradia melhor então, em vez de construí-la conforme o modelo brasileiro optou-se por copiar em escala menor o vistoso chalé chamado Villa Sonnenbühl, residência da família Wirth nos Alpes suíços. Talvez por  praticidade o pioneiro encomendou logo mais uma casa parecida, porém menor ainda, para si na Fazenda Paredão. Assim a Villa Sonnenbühl, construída em 1911, com quatro pavimentos além do sótão, 11 quartos, banheiros, salas e salões, cozinha com depósitos, estrebarias e gazebo gerou logo duas cópias...


 A primeira cópia Max Wirth construiu para si e para sua esposa Emily na Fazenda Paredão em Oriente. Era minúscula para o padrão da época, mas já que os filhos estavam todos na Suíça completando os estudos bastava-lhes uma casa pequena. Tinha apenas um quarto, amplo banheiro, sala com copa de almoço, cozinha com fogão à lenha, despensa e uma varanda. Não havia acesso interno ao sótão, mas tinha um pequeno anexo para serviços.


A segunda cópia, bem maior, foi a casa da família Loosli, construída em 1936. Ernst, Emma, a pequena Lilly e o recém-nascido Fritz moravam na sede de madeira antes de mudarem para sua nova casa de alvenaria. Ao contrário da Villa original esta casa tinha somente um pavimento térreo com 3 quartos, banheiro, copa, cozinha, sala de estar, sótão com dois quartinhos,  grande varanda adequada ao clima tropical e uma piscina que também alimentava o lavador de café. Posteriormente também foi construído um anexo para serviços e, quando a filha mais velha Lilly se casou, foi acrescentada uma suíte no fundo.




Detalhes típicos das construções suíças como os telhados muito inclinados, os oitões revestidos com tabuinhas de madeira em forma de escamas, as paredes das salas revestidas com painéis de madeira e a lareira no centro da casa, compõe um estilo único, resultante da profunda saudade dos suíços que trocaram sua pátria pelo Brasil.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (10)

1.6 Moradias (1)

As duas Casas Sede:
Depois da primeira derrubada em 1922 logo foram construídas muitas casas de madeira para acomodar os desbravadores acampados. Max Wirth fez para si uma casa com aproximadamente 200 metros quadrados, quatro quartos sala e cozinha. A princípio não havia banheiro, depois foi construído ao lado uma casa de banho de alvenaria que também abrigava o gerador à diesel.  Avarandada na volta toda e elevada do terreno natural era uma construção de madeira solidamente implantada no final da fila de casas de seus colaboradores mais próximos. Mesmo antes de ficar pronta ele chamou sua mulher Emilie com os 7 filhos para que viessem da Suíça acompanhá-lo em sua aventura. Seu filho Max Wirth Junior descreve esse evento com maestria:


“A casa de madeira. Saindo do palacete vermelho chamado Sonnenbuehl no Toggenburg (Suíça) onde havia todo conforto como água corrente quente e fria, calefação nos 11 quartos, jardim de inverno, sala de jantar e salão principal, a chegada nesse bangalô sobre palafitas, ainda inacabado, erguido entre toras da queimada e entulhos da obra, deve ter sido um choque para a mãe! Não me lembro do ano - acho que foi em agosto ou setembro - de qualquer maneira era logo após a queimada da mata já derrubada havia semanas, quando as cinzas ainda não estavam misturadas ao solo e a bruma da fumaça encobria a vista deixando o mundo tão triste como após uma devastação atômica. Era pedir demais de uma mãe, exausta após a viagem de três dias com sete filhos empoeirados, suados, famintos e sedentos, sem saber como seria o dia seguinte.


O pai nos havia esperado na estação ferroviária em Albuquerque Lins onde deveríamos ter chegado 2 ou 3 horas antes. Três carros de aluguel e o caminhão da fazenda estavam a postos e por ainda ser necessário percorrer aproximadamente 40 quilômetros seguimos sem mais delongas. No início da viagem havia plantações de café novo, arbustos redondos alinhados, havia carreiras de casas novas de madeira, pastagens e quiçaça, córregos e brejos, depois a verde mata fechada onde enormes borboletas azuis dançavam à nossa frente, acompanhando-nos por um trecho para em seguida desaparecer na selva. Depois a ponte precária sobre o rio, o rápido intervalo para colocar água no radiador e longas retas de estrada na floresta, uma parada num entroncamento e plantações novas. Pessoas nos cumprimentavam com cordialidade. Eram colonos da fazenda que acabavam de consertar o último trecho da estrada. Me lembro...que uma caixa de cerveja foi tirada do caminhão e as pessoas sedentas brindaram com bom humor. A cerveja espumava e transbordava; o auge desse dia de nossa chegada na fazenda Suiça...no final da longa viagem, lá estava nossa casa, o bangalô sobre palafitas...”


Em 1925 Max Wirth construiu para sua família uma casa de alvenaria, muito parecida em sua concepção com a primeira casa de madeira, porém mais confortável e localizada no ponto mais alto da fazenda. Seu principal colaborador, o gerente geral Ernst Loosli, passou a morar na casa de madeira. A foto abaixo mostra a pequena família recepcionando visitas na frente da casa e ao fundo se vê a casa de banho. Em 1936 a família Loosli se mudou para uma nova casa de alvenaria e Walter Schiller passou à morar na casa de madeira.




A casa de alvenaria era maior, também avarandada em três lados, com cinco quarto uma cozinha, um banheiro e salas de jantar e estar. O banheiro tinha duas portas: uma dava para o quarto do casal e outra dava para a varanda e era utilizada por todos os demais moradores da casa. Havia um tanque para lavar roupas no porão e o sótão servia de depósito.


As paredes das salas de jantar e estar eram revestidas com painéis de madeira de 1,50m de altura. Esse bonito detalhe foi importado da Suíça onde é muito utilizado para melhorar o conforto térmico nos invernos rigorosos, quando as paredes de alvenaria irradiam o frio. Não havia porta de ligação entre a cozinha e a sala de jantar, porém uma janelinha embutida na imensa estante com aparador servia de passador para as travessas de comida.

 Essa residência imitava o modelo das casas de bandeirantes, tão em voga na década de 1920 quando o Movimento Modernista redescobriu e passou cultivar valores brasileiros.


Em 1928 os filhos mais novos Hans, Max, Peter, Emil e Verena viajaram para a Suíça à fim de continuar seus estudos. As duas irmãs mais velhas Annemarie e Hanne já se encontravam lá e ficaram encarregadas de cuidar dos irmãos na ausência dos pais. Logo Max Wirth se mudaria para a Fazenda Paredão em Oriente, mas continuou utilizando essa sede sempre que vinha à Fazenda Suissa.

Todos os filhos, um após o outro exceto Annemarie, moraram transitoriamente nessa casa ao retornarem já casados da Suíça, antes de assumirem cada qual suas próprias responsabilidades nas empresas do pai.


sábado, 12 de dezembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (9)
  
1.5 Saúde, Educação e Lazer (3)

Lazer:
Na colônia Santa Luzia tinha um campo de futebol grande onde todo sábado havia jogo. Ali também aconteciam as festas tal como descreve Max Wirth Junior em suas memórias:
“Festa na colônia: eis a inauguração festiva de uma das colônias com aproximadamente 20 casas duplas construídas em madeira sobre alicerce de alvenaria. Chegava gente à pé, à cavalo, de carroça e carro, foguetes subiam ao céu, bombinhas estouravam, bandeirolas esvoaçavam e jorrava espuma de cerveja quente das garrafas.

A sensação da festa era o boi no espeto! O churrasco é essencial para qualquer festa, carne à vontade para todos, o quanto cada um puder comer...O boi assado inteiro, a carne sendo cortada em lascas finas, oferecia especial satisfação aos olhos e ao olfato. Era o ano de1925 ou 26. O pessoal em trajes domingueiros, todos de chapéu, alguns de gravata, se vestiam com formalidade em sinal de respeito.”


Nos anos de 1940 a região de Guaimbê foi eletrificada. Com a vinda dessa nova fonte de energia as máquinas à vapor ficaram obsoletas. A sala da caldeira no final da linha de galpões destinados ao armazenamento e beneficiamento de café passou a abrigar o cinema. Todo sábado o ônibus Pássaro Amarelo trazia 4 grandes rolos de filme que eram apresentados depois do anoitecer.


Mas havia também os saraus dos suíços. Eles cantavam uma espécie de música suíça caipira chamada “Jodel” conforme relata Max Wirth Junior.


“ Na foto vemos a Família Farner, o pai, a mãe, Elsa, Amalie, Emma e Konrad...Não demorou muito para que a filha mais velha, Emma, viesse trabalhar em nossa casa pois já sabia cozinhar. Ela aprendeu culinária com a mãe e canto com o pai que cantava no coral masculino de Stammheim (Suíça) onde tocava um restaurante que chegou à beirar a falência, razão pela qual preferiu emigrar com a família para o Brasil. Quem gosta de cantar deve ter sentimentos e um pendor para o devaneio, e quando a vontade de fugir e o romantismo se misturam, emigrar surge como uma solução... Às vezes os Farner nos visitavam em casa, aí sempre cantávamos todos juntos. Ernst Loosli, o mais importante jovem colaborador de meu pai, sabia cantar o Jodel sem inibição com voz forte conforme a tradição dos Alpes Berneses. 


Juntamente com o timbre soprano de Emma, ou mesmo à três vozes afinadas, entoavam canções comoventes que soavam pela noite estrelada afora. Quando eram acompanhadas por Walter Schiller ao acordeom aí já havíamos um concerto respeitável de coral, cheio de emoções e após derramarmos algumas lágrimas saudosas o sarau se encerrava com o “evergreen” “Sah ein Knab ein Röslein stehn” ou o alegre ¨Dur’s Toggeburg uf und s’Toggeburg ab”. O canto pode construir pontes, até mesmo unir corações ou embelezar um acaso conveniente. Seja lá como for a cantoria ao luar teve efeito pois as três filhas dos Farner se casaram seguidamente: Emma com Loosli, Amalie com Schiller e Elsa com Meier.”


Elisabeth Loosli Massarollo, filha caçula de Ernst e Ema Loosli, relata que na escola havia também aulas de dança. As professoras ensinavam a valsa, o xote e a marcha. Havia uma vitrola que funcionava quando se dava corda para tocar os discos de vinil.
Elisabeth está no centro da foto ao lado de sua irmã mais velha Lily e dos irmãos Fritz e Ernst. Ao fundo o secador e a moega... 
Com tanta música na Fazenda Suissa não é de se estranhar que Elisabeth veio à se casar com Celso Massarollo, um verdadeiro pé-de-valsa...

domingo, 6 de dezembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (8)


1.5 Saúde, Educação e Lazer (2)

Educação:
A maioria dos imigrantes estrangeiros veio para cá por necessidade, fugindo de uma guerra, crise econômica ou perseguição. Max Wirth foi um dos poucos que veio por opção. Trocou a vida confortável que gozava como industrial na Suíça pela aventura de desbravar terras no Oeste Paulista. Elaborou uma estratégia para cativar colaboradores qualificados nesse fim de mundo. Um ponto fundamental era garantir o acesso à educação não somente aos filhos daqueles que ocupavam cargos de chefia, mas também aos filhos dos colonos. Entre os colaboradores mais próximos havia muitos suíços. Por isso nos primeiros anos havia duas escolas na fazenda: a escolinha suíça, na qual também estudavam seus próprios filhos, e a escola brasileira para a população residente em geral.

A escolinha suíça não existe mais, porém a escola brasileira foi ampliada e adaptada ao longo dos anos. O desenho ilustra a situação da escola naquela época conforme relatos de ex-professoras e alunos.


A escola brasileira se chamava oficialmente Escola Mista da Fazenda Suissa. Ela funcionava numa sala adjacente à casa do farmacêutico. Havia uma varanda de acesso que ficava entre a sala de aula e a casa. No fundo havia um sanitário precário para atender os alunos. Fritz Loosli nos conta de suas professoras Dona Joaninha e Dona Maria Angélica que vinham cedo de Getulina com a linha de ônibus Pássaro Amarelo, almoçavam na casa de Sr. João o farmacêutico e voltavam para casa somente de tardezinha quando o ônibus retornava de Garça. As quatro classes do ensino básico funcionavam na mesma sala. Na foto à seguir Lilly, a irmã mais velha de Fritz Loosli, está sentada na primeira carteira à esquerda. A professora é Dona Maria Angélica.


 Max Wirth Junior descreve seu aprendizado na escola suíça da seguinte forma:
“A escola foi construída dentro do recém-plantado bosque de eucaliptos logo depois de nossa chegada. Era uma construção de madeira sobre palafitas conforme o costume da época, com dois compartimentos e uma grande varanda na frente... Não havia forro, as paredes eram altas, aproximadamente de 3 metros, fechado por um telhado aparente e arejado... Nossa escola era simples – cumpria sua função. Num quarto morava o senhor professor, primeiro o velho, depois o Schinsky. Havia uma cama de ferro branca com molas e colchão de palha, uma caixa que fazia às vezes de criado-mudo, um guarda-roupa, o lavatório de ágata com jarro e uma pequena mesa com cadeira. Ambos os professores preparavam seu próprio chá de manhã, Lipton com leite condensado ou chá mate Leão que vinha embalado numa caixinha de madeira com os dizeres “já vem queimado” para diferenciá-lo do mate verde de chimarrão que era comercializado em barricas. Quando alguém estava de mau humor se dizia “ele está queimado” de forma que nós apenas sussurrávamos “Mate Leão” quando o professor Hauser nos recebia de mau humor para a aula. Ele não gostava de lecionar, preferia nos ensinar trabalhos manuais e nunca mais esquecemos as lições que ele nos deu na bancada cheia de ferramentas que ficava em sua varanda. Mas ele também tinha uma caixa cheia de livros, bem ordenados sobre uma estante de tábuas de sua biblioteca. Eram livros bons, escolhidos à dedo, pois a leitura era sua paixão e se Konrad Hauser, o péssimo professor que logo seria demitido sem dó nem agradecimentos pelo nosso pai, nos deixou algo para a vida seu legado foi o amor à leitura... 


Professor Walter Schinsky substituiu o primeiro professor... porque após dois anos de aulas particulares ainda ignorávamos a tabuada mesmo conhecendo de cor a história de Robinson Crusoé. Fazíamos trabalhos manuais, montávamos à cavalo, atirávamos, mas nossa ortografia era precária, os conhecimentos de matemática eram um escândalo, enfim, estávamos muito atrasados exceto na leitura. Por isso a vinda de Walter Schinky foi como uma declaração de guerra, um estrondo após o qual fomos bombardeados com conhecimento e forçados ao estudo... De dia os estudos e as brincadeiras nos mantinham ocupados, de noite Karl May nos roubava o sono porque líamos até a vela se extinguir. Acho que podemos considerar que tivemos uma infância feliz. Não havia rádio, muito menos televisão, mas líamos e conversávamos – líamos muito e certos livros até repetidas vezes.. ”


(A leitura à qual Max Wirth Junior se refere são os livros da série de faroeste infanto-juvenil cujos heróis eram o índio apache Winnetou e seu amigo caçador Old Shatterhand, ambos retratados abaixo junto com a foto do autor Karl May)


sábado, 28 de novembro de 2015

1.Fazenda Suissa 1925 a 1955 (7)
1.5 Saúde, Educação e Lazer (1)

A Fazenda Suissa fica entre Lins e Marília, distando aproximadamente 40 quilômetros de ambas as cidades. As estradas eram precárias e os meios de transporte escassos. Por isso se fazia necessário uma estrutura física e serviços completos para atender a população residente de mais de 1000 pessoas. Vimos anteriormente que tinha instalações tanto para a produção e manutenção, como para atender as necessidades cotidianas seja o armazém, o açougue, a escola, a farmácia ou o clube.

Saúde:

 “Prof.Dr. Robert Hottinger, por nós crianças chamado de “Onkel Robert”, era naquela época o único amigo íntimo de nosso pai. Por volta de 1898 ele foi convidado para vir ao Brasil pela Escola Politécnica de São Paulo, à princípio assumindo uma cátedra na medicina veterinária, depois por sua versatilidade e talento genial, foi professor de química. Também devia entender muito de biologia porque patenteou as moringas Salus, potes de barro que transformavam água contaminada em água potável e o Bolusargel , uma mistura de prata e argila eficiente contra toda sorte de disenteria, substância indispensável para nós.”  
 Assim descreve Max Wirth Junior o melhor amigo de seu pai, o pioneiro Max Wirth fundador da Fazenda Suissa.

Juntos os amigos chegaram a desenvolver um projeto chamado Vitafarma para produzir vacinas contra a poliomielite e outras doenças. Infelizmente essa iniciativa, apesar de diversos esforços, não vingou, mas a amizade trouxe benefícios significativos para a saúde dos colonos, pois havia tanto um médico, como um dentista e um farmacêutico na fazenda.
Max Wirth Junior conta em sua crônica:

“Senhor Von Scheel chegou à Fazenda Suissa para tratar da saúde das 200 famílias de colonos. Era um homem pequeno, delicado. Apesar da postura ereta de oficial do exército prussiano, sempre se debruçava profundamente para beijar a mão de uma dama. Ele era dentista. Não sabemos se diplomado ou não, se autodidata ou formado às pressas em curso supletivo. Seja como for ele extraía dentes, de preferência sem anestesia, utilizava um rotor movido à pedal para fazer obturações, implantava próteses e dentes de ouro. Ele era trêmulo, mas sempre sorridente, exercia seu ofício utilizando poucos instrumentos porque não havia eletricidade, muito menos ar comprimido ou mesmo água potável para garantir a higiene adequada e nem se fale em aparelho de raios-X. Ele ia de colônia em colônia necessitando apenas um cômodo arejado com a janela aberta... Nunca lhe faltava serviço e desta forma ganhava algum dinheiro, aparentemente suficiente para si e sua delicada esposa. Ela era uma autentica baronesa, sempre pálida e também trêmula, ora contente e amável, ora deprimida e calada; uma mulher que havia conhecido dias melhores e sofria pela precariedade das circunstâncias que somente era capaz de suportar porque seu querido marido lhe providenciava uma tão premente injeção lenitiva em intervalos regulares. Logo não havia mais segredo que a baronesa era dependente de morfina. 


A droga também podia ter sido fornecida por seu genro Dr. Guenther Dietrich, o médico, de quem se dizia a boca pequena que era igualmente viciado. Mas o que nós admirávamos com espanto era sua colossal fúria de fumante, acendendo um cigarro no próximo com incansável maestria, de forma que nos perguntávamos se ele vivia de ar ou fumaça. Nunca mais encontrei uma pessoa que conseguisse soprar a fumaça tragada com tanta força simultaneamente pela boca como pelo nariz! Nas visitas aos doentes das colônias ele sempre vestia seu rígido chapéu de feltro, a gravata escura sobre camisa bem abotoada, suspensórios, bombachas e, no lugar das botas, polainas sobre sapatos de cadarço, enfim um prussiano organizado da cabeça aos pés, nervoso, extremamente disciplinado, um verdadeiro médico, porém ele próprio um sofredor.”

A foto à seguir é uma simulação do conjunto da escola com a casa do farmacêutico ao fundo, a farmácia e a casa do fiscal geral em primeiro plano.



A Sra. Ana Maria de Freitas, filha do farmacêutico Sr. João Wenceslau de Freitas, contou que sua casa na época ficava junto à sala de aula, separada por uma varanda. Depois havia um gramado com uma grande mangueira entre a escola e a pequena farmácia adjacente à casa do fiscal geral. Sr. João exerceu seu ofício na Fazenda Suissa durante a década de 1940, quando o Sr. Von Scheel e seu genro Dr. Dietrich já não moravam mais na fazenda.